Debrucei-me no livro durante a noite clara;
O luar que invadia as frestas da janela
Eram minhas luminárias em meu próprio breu.
No meu eu escuro, mal pude sentir que
Ficava com o olhar pálido e o coração
Vazio de ser expulso de si.
Estava migrando de um sentimento a outro
Em linhas fronteiriças e limítrofes que
Custavam-me tão pouco e tão muito
Para sair do mais profundo êxtase
E ir de encontro à completa solidão.
Dói um pouco ter de abandonar a leitura
Para me acolher inteira na realidade crua
E fechar o livro e encarar a janela
Para abrir em mim o que há de minha história de sentir contando.
Não havia ali nenhum divã
Nenhum ouvido amigo disponível
Nenhuma mensagem seria respondia àquela hora
E as postagens das redes sociais já eram de ontem.
Não podia falar em voz alta.
Os olhos pesados já não conseguiam ler.
Nada a preencher o quarto, além da luz rala
E o meu corpo estendido.
Nem mesmo um tic-tac de relógio.
O que fazia ali acordada
Ali desperta e tão só
Era mistério até para mim
Que não sou assim ingênua
E divido quarto com mais pessoas.
Precisava de um acolhimento que não caberia em abraço,
Mesmo que abraço seja uma das coisas
Mais deliciosas a se experimentar,
E de um amor que expressão de amor nenhum parecia suficiente.
Precisava de uma música que nunca foi escrita
Tocada ou pensada.
Precisava de um poema sem versos
De um silêncio mais silencioso e menos turbulento.
Precisava de um apoio que nenhuma palavra saberia dizer,
De uma experiência que não acharia em nenhum lugar do mundo.
Estava ali, parte do universo, vivendo uma imensidão
Que não cabia em mim e em lugar algum da cama.
Que tipo de alegria eu quero?
Que é felicidade que não sei se tenho, se vivo?
Que faço eu da minha vida?
Que serei depois da vida?
Quanto de amor estou disposta a dar?
(Todo, todo, e assim é que me dói)
Quanto dos outros eu exijo?
(Tanto, tanto, que machuca o rosto).
Quero dar toda de mim sem economias
Mas ninguém quer inteiros despedaçados
E assusto-lhes quando estou intensa sendo eu mesma:
Como pedes, logo rejeitas.
E assim, desajeitada, eu já sangrava sem saber
Só o líquido rubro a escorrer pela face
Os machucados derramando as lágrimas que
Dos meus olhos não saem
E, escorrendo, socorro-me.
Socorro! – grito em sonho mudo.
Mas há curativos que não alcançam ferida
Porque o ferimento não é raso na epiderme
Vai fundo na carne, origina-se para além dos ossos.
E assim, quando o céu é de um azulado cru,
Sem lua e sol
Sinalizando que amanhece,
O repouso acontece por obrigação
Sem dar trégua ao corpo
Que ainda lamenta a inviabilidade de ser.
-18 de Janeiro de 2017-
Texto: Clara Liz | Photo by Ahmed Nishaath on Unsplash

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