É proibido sentir?
É proibido sentir.
Quando criança, Lindinha corria livre pelos espaços da casa. Seja atrás de uma bola ou dos priminhos para brincar. Lindinha cai. O joelho escorre o sangue quente da ferida aberta. Lindinha corre para os braços da mãe aos prantos.
“Engole o choro, menina.”, a senhora grita.
E foi assim, que Lindinha aprendeu que não poderia sentir, pela primeira vez.
Já na escola, a amiguinha pega um pedaço de bolo após o “parabéns para você”, para Lindinha. Sem qualquer motivo aparente, a amiguinha joga bolo na aniversariante, sujando todo seu rosto. Lindinha sente raiva, mas não pode revidar. Raiva e vingança não são coisas que Papai do Céu gosta.
Lindinha foi crescendo e descobrindo que algumas coisas ela não poderia sentir: medo, dor, raiva, ou qualquer outro sentimento humano considerado “negativo”.
“Você está bem”, ela ouvia de um, enquanto a dor lhe afligia. Mas parecer bem, não apaga o que se sente, as emoções. Apesar de ser isso que acreditavam.
“Não odeie quem é sangue do seu sangue, um dia você pode precisar”, precisar de alguém que te maltrata de graça? Sério? Como se a vida e as pessoas desconhecidas já não fizessem isso. E diria que, para Lindinha, os desconhecidos foram sua melhor família.
Mas nessa vida de não sentir dor, raiva, medo, angústia, uma hora Lindinha não suportou e explodiu – ou implodiu, já que tudo o que ela sentia vinha de dentro.
E, para juntar os pedaços de todo um crescimento ligado ao “não sentir”, Lindinha descobriu que precisava sentir, que era normal sentir. O que importa, na verdade, é o que ela faria com aqueles sentimentos: usaria contra ela mesma ou a seu favor, para evoluir e se libertar?
É proibido NÃO sentir!
Texto: Deborah Vieira

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